sábado, 23 de fevereiro de 2019

OS IMPREVIDENTES.

Sob  o  título:   Nós,  os   imprevidentes;  O  Boletim  de  atualização  da  revista eletrônica EcoDebate,  em  sua  edição  3151 de  18  de  fevereiro  do corrente ano publicou o seguinte artigo de Montserrat Martins*.

“Culpar 2019 não vale, porque todas vidas perdidas nesse início de ano tem algo em comum: a imprevidência. Não são fatalidades, são tragédias anunciadas, que deveriam ter sido prevenidas. Temos algo a mudar, com todas essas perdas, temos de reconhecer e rever nossos hábitos, nossa cultura, o espírito do “não vai dar nada”.
Ao contrário do que dizemos de nós mesmos, os brasileiros tem muitas qualidades, não é o caso de carimbar a auto-desvalia nacional. Mas nosso maior defeito, sem dúvida nenhuma, é a imprevidência, a desorganização, a falta de planejamento. Não gostamos de ler nem manual do automóvel (quem aí lê?).
Quem busca a felicidade individual deve começar pelo autoconhecimento, para o qual uma terapia pode ajudar muito. Nossa felicidade coletiva, como sociedade, também requer começar pelo reconhecimento de nossas características básicas, virtudes e defeitos, pontos fortes e fracos.
Somos criativos, plurais, flexíveis, adaptáveis, fazemos muito com pouco, somos misturados, somos comunicativos e emotivos, somos sobreviventes que aproveitamos cada dia, somos “resilientes” como está na moda dizer. Não somos organizados, disciplinados, não somos previdentes, não planejamos o futuro.
Muitos já se dedicaram a estudar o brasileiro, a história da formação do nosso povo, de Gilberto Freyre a Darcy Ribeiro, que escreveram alguns clássicos da sociologia pátria. Nenhum foi tão preciso como Sérgio Buarque de Hollanda, que apontou claramente nossa herança cultural da península ibérica, de povos que preferem a aventura e o risco ao progresso metódico e disciplinado.
Em toda a história da nação lusa, ela nunca fez tanto sucesso quanto na era épica das navegações e descobrimentos, uma atividade basicamente aventureira, de grandes emoções. Nunca o trabalho metódico tal como os ingleses, ou os germânicos, de progresso através do trabalho paciente, de acumulação progressiva de patrimônio através do esforço cotidiano e disciplinado. Isso não é com a gente, nos identificamos com o estilo de vida do filme “Fique rico ou morra tentando” (Get rich or die trying), da história de vida do rapper “50 Cent”.
Os donos da Vale querem enriquecer cada vez mais, os governadores do Rio de Janeiro também, os dirigentes dos clubes, os donos de aeronaves comerciais, todos querem o caminho mais fácil, mais rápido, sem grandes cautelas. Nossa cultura aceita isso, só nos chocamos quando dá errado.
Somos reativos às perdas, apesar de não as prevenirmos, unidos na dor, somos sensíveis e solidários, depois do ocorrido. Poderia ser com a gente. Enquanto isso vamos vivendo no improviso, como se nunca fosse acontecer conosco.
A dor recorrente das perdas será capaz de nos modificar?”

Não sou adepto da teoria “oito ou oitenta”; não acho que devamos nos comportar como ingleses, alemães ou qualquer outro povo, temos mesmo características peculiares que devem ser preservadas; fazem parte de nossa identidade; mesmo porque uma vida "formatada" também tem lá seus senões; mas bem que podíamos, como sociedade, incorporar um pouco de compromisso e seriedade ao nosso "Modus Operandi", com certeza teríamos muito a ganhar... Muitos de nós fizeram e fazem isso e o sentimento de bem estar decorrente é significativo e, além do que, saúde também tem a ver com comportamento.

*Montserrat Martins, Colunista do EcoDebate, é Psiquiatra, autor de “Em busca da alma do Brasil”.